Acervo em Lorena ganha vida nova para inspirar futuros poetas
terça-feira, 23 de outubro de 2012Péricles Eugênio da Silva Ramos, poeta lorenense, que faria aniversário em 24 de outubro, tinha cerca de 20 mil livros em sua casa. Deste total, quase 4 mil foram doados para a cidade de Lorena.
Segundo Clóvis da Silva Ramos, filho de Péricles, a biblioteca de seu pai, com cerca de vinte mil volumes, lotava a sua casa. Não havia mais onde colocar os livros, para o desespero de minha mãe. “Novos livros chegavam todas as semanas, em especial as primeiras edições de poetas brasileiros, como Álvares de Azevedo, que adquiria quase sempre na Livraria Calil.”
Sua biblioteca não tinha uma identidade temática. Possuía, além do Alcorão, a Bíblia escrita em hebraico. Das Mile Uma Noites aos Sonhos de Uma Noite de Verão. Minha mãe chegou, sem qualquer resultado prático, a proibi-lo de adquirir novos livros.
Entrava escondido e deixava os pacotes de livros no estúdio, situado no fundo de sua casa. Posteriormente abria os pacotes e levava os livros um a um para o seu escritório”. (Da entrevista concedida ao Jornal “O Lince” (nº44 – Março/Abril 2012) por Clóvis F. da Silva Ramos, filho de Péricles.)
Quase quatro mil livros, dos vinte anunciados pelo filho Clóvis, formam, hoje, o acervo Péricles Eugênio da Silva Ramos, doado à cidade de Lorena. Dentre eles, coleções do dramaturgo Willian Shakespeare – algumas traduzidas e várias outras edições em inglês e alemão – com destaque para a francesa, completa em seus dez belos volumes, editada em 1889.
Lembrando que a sua biblioteca pessoal era famosa por essas coleções e que suas elogiadas traduções dos poemas do Bardo recebeu inúmeros prêmios internacionais. O Instituto Shakespeare, em Londres, indica as traduções e notas feitas por Péricles como referência para um bom entendimento da obra do dramaturgo.
O acervo também inclui obras de grandes nomes da literatura nacional, várias autografadas de forma afetuosa e pessoal, demonstrando o imenso respeito que Péricles recebia de seus pares. Dedicatórias escritas por Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Ciro dos Anjos, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Antonio Houaiss e Guimarães Rosa – numa edição de 1958 de “Grande Sertão Veredas” – são alguns destaques dessa explícita e mútua admiração.
Pastas contendo importante documentação também chegaram a Lorena na companhia dos livros. Parte da correspondência trocada com amigos literatos como Cassiano Ricardo, Vinícius de Moraes, Lêdo Ivo e tantos outros; com políticos, como Adhemar de Barros (então prefeito da cidade de São Paulo) e familiares, enriquecem o precioso acervo.
Sem falar nos inúmeros recortes de jornais e revistas que atestam suas variadas conquistas, não só no mundo da literatura, mas exercendo inúmeras outras funções com igual maestria e reconhecimento, como quando foi diretor do Conselho Estadual de Cultura, participando de momentos decisivos da capital paulista, como da fundação do Museu de Arte Sacra e do Museu da Imagem e do Som.
Medalhas, placas, méritos e atestados de um sem número de honrarias conquistadas ao longo de sua vida produtiva e vitoriosa – como o Prêmio Olavo Bilac, concedido pela Academia Brasileira de Letras, em 1961, e o diploma de Grão Mestre das Ordens Portuguesas, recebido em abril de 1977 – completam o acervo herdado por nossa cidade.
Também faz parte do valioso patrimônio a casaca que Péricles usou no dia de sua posse na Academia Paulista de Letras; fotos que confirmam sua participação em relevantes momentos da recente história de São Paulo e curiosidades, como convites para jantares e comemorações ao lado de líderes internacionais, grandes personalidades, príncipes e presidentes.
Fonte: R3